Em palestra na FSG, Leandro Karnal fala sobre educação e estratégias para um novo tempo

O historiador e professor Leandro Karnal esteve na FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha na noite desta quinta-feira, 16 de março, para uma palestra sobre planejamento e estratégia para um novo tempo. O evento foi uma promoção conjunta da FSG com Unimed Nordeste e Sescoop-RS.

Antes da palestra, nossa equipe conversou com o professor sobre os desafios de uma educação crítica, o papel dos educadores, paradigmas do conhecimento e cenário atual do Brasil.

Segundo Karnal, a educação é uma aposta de esperança de futuro, mas que isso, por vezes, acaba sendo esquecido, por conta de uma rotina burocrática e tarefeira da sala de aula. Assim, um dos grandes desafios do professor é absorver as tarefas e ao mesmo tempo ter consciência de que ele é alguém que prepara um horizonte, tendo em mente sua responsabilidade a longo prazo.

– Não é só a disciplina e o conteúdo que estou passando hoje ou a prova que farei no fim do ano que tenho que me preocupar, mas é também que cabeça que estou formando, que tipo de aluno, qual o modelo de cidadania, quais os valores que estão sendo passados.

Conforme o historiador, a humanidade passou por diversos paradigmas. O primitivo se baseava na força física que foi substituída pelo dinheiro na idade média e contemporânea. Agora, vive-se sob o paradigma da busca pela validação e aplicação do conhecimento, confirmando a tese do filósofo inglês Francis Bacon de que o conhecimento é poder.

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Para Karnal, as instituições de ensino, principalmente superior, são responsáveis não apenas por repassar conteúdo de identificação mas proporcionar instrução em relacionamento, análise, critica, aplicação.

– As escolas, a maioria delas em geral, estão perdendo o bonde da história, ou seja, as transformações técnicas estão ficando mais rápidas do que a estrutura formal e pesada da instituição escolar.

Contudo, isso não significa dizer que as escolas precisam se modernizar tecnicamente. Karnal entende que a escola verdadeira seria aquela que faz pensar esse paradigma, porque a robotização da humanidade e o caráter automático da transmissão de dados não é bom. Ou seja, não basta dizer que ser moderno é ser bom, é preciso aplicar um senso crítico de origem humana, antropológica, sociológica e filosófica de que não é a técnica que caracteriza a inovação, mas a maneira de como a técnica serve ao ser humano, transforma num pensador autônomo e o transforma num ser capaz de se inserir numa sociedade criticamente.

O professor explica que não basta ensinar ao aluno apenas o uso da última versão da planilha do Excel ou o ambiente mais avançado na nuvem, se continuo ensinando valores ultrapassados.

– Hoje, muita gente confunde aula boa com aula eletrônica e aula ruim com aula expositiva, e isso é um equívoco. Nem tudo que é novo é bom, nem tudo que é antigo é ruim.

Para Karnal, a escola continua, como há 100 anos, tendo por objeto tornar o ser humano pleno. Se isso vai ser com giz, debaixo de árvore ou na nuvem utilizando um computador de última geração, importa pouco, mas não se pode perder de vista a humanização do conhecimento.

Cenário brasileiro atual

Conhecido por ocupar espaços importantes da mídia brasileira em veículos de circulação nacional e, frequentemente procurado para conceder entrevistas sobre assuntos diversos, Karnal também comentou a respeito do momento pelo qual passa o Brasil. Para o historiador, as alternativas políticas atuais não são boas, além do visível descrédito que a sociedade passou a ter pelos governantes públicos.

– Contudo, estamos em um momento de impasse onde pode ser bom ‘trazer o bode para a sala’ e discutir, pois temos mais de um projeto de Brasil na mesa.

Infelizmente, o que deriva disso, segundo Karnal, é que nenhum dos projetos, por estarem muito polarizados, reconhece no outro a brasilidade, a honestidade ou o caráter construtivo. Cada um considera ter consigo o futuro e com o outro o passado.

– Enquanto não conversarmos, enquanto não entendermos que há mais de um projeto de Brasil, nós vamos continuar babando verde nas redes sociais, excluindo pessoas e odiando todo mundo, o que não nos leva absolutamente a nada.

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